domingo, 20 de maio de 2012

Cartas para Ava I

domingo, 20 de maio de 2012 0







O terceiro e-mail era do Contra Almirante Agenor que era muito amigo de Ava e esteve com ele quase todo tempo que tinham servido, foi com ele que se iniciou a guarda do Apocalipse num dia de grande tribulação onde conseguiram desviar o barco de uma estranha ocorrência no Atlântico quando se dirigiam para Fort Lauderdale para um treinamento internacional, estavam em um Navio Escola e acabaram entrando na região do triangulo das bermudas após uma falha nos equipamentos de navegação que desviou o barco da rota segura, Ava estava na cabine junto com Agenor e conversavam com o comandante quando tudo aconteceu, o barco começou a girar como se estivesse num redemoinho e os rádios ligaram e começaram a transmitir sons estranhos quando Ava foi ao convés ver o que acontecia constatou que o barco não estava em cima da água e sim flutuando , ele ia correr quando Agenor apareceu, eles se olharam e viram as nuvens se abrirem em cima do barco, a impressão de que um anjo descia e o mar serenou o barco lentamente voltou a agua e os equipamentos voltaram a funcionar, foi tudo muito rápido e apenas os dois viram isso, o que lhes tornou cúmplices de alucinações.

Tinha apenas doi anos a mais que Ava, cresceu órfão de pai e mãe tendo rolado por diversas instituições, foi criado pela vida, não tinha histórico de formação religiosa, mas era chamado pelos amigos de bom cristão, tendo em vista ser sempre tranquilo e parcimonioso e principalmente por ser o único capaz de demover Ava de idéias excessivamente absurdas,

Querido Amigo ,

Que a lucidez não nos cegue, escrevo-lhe para relatar estranho ocorrido nesta noite, estava em meu navio entretido com um grupo de golfinhos quando ouvi um estranho barulho no tombadilho, peguei uma arma e fui até lá, quando cheguei vi um rapaz muito pálido em estranhas e pesadas roupas ele parecia perdido quando lhe apontei a arma me disse “ Que sempre experimentemos a paz, comandante” abaixei a arma e respondi mas que nunca temamos a batalha,perguntei da parte de quem ele vinha Disse que vinha em paz e que me contaria umas coisas mas que antes precisava de um café quente, servi-lhe um café, ele tirou o pesado casaco e parecia feliz, depois do café quando eu ia começar a lhe inquirir não sei explicar, penso que adormeci, tive um sonho eu sentia muito frio, muito frio, quando olhei ao redor estava num iglu, demorei um pouco pra acostumar a vista, estava tudo escuro lá dentro, o rapaz me chamava da porta, la fora estava um clima de fim de tarde, mas as pessoas estavam acordando e saindo de outros milhares de iglus espalhados, a sensação que eu tinha era de estar num estranho passado de cavernas, não havia luz, nem poste, nem energia elétrica , e todos vestiam e calçavam pêlos improvisados de animais, eles se dirigiam para uma fogueira pareciam todos tristes, um homem subiu num cubo de gelo e as pessoas começaram a se abraçar , ele disse cinco nomes e em seguida começaram a ser ouvidos gritos e lamentos, as pessoas mencionadas foram conduzidas até onde se lia o nome delas, uma fila se formou ao lado da fogueira com canecas, todos recebiam um pedaço de carne e um pouco de água quente, do lado da fogueira duas morças amarradas provavelmente para alimentar a população, a cena que se seguiu foi aterrorizante os cinco foram levados para uma especie de abatedouro,um deles tentou fugir e foi violentamente espancado por outros, em seguida foram todos esquartejados e aos poucos suas partes foram lançadas ao fogo, menos suas cabeças que foram colocadas em uma aterrorizande parede de gelo com milhares de cabeças congeladas, quando eu ia perguntar o que estava acontecendo acordei e novamente estava sozinho em meu navio, mas a xícara de café que servi ao estranho rapaz estava lá, creio que tive uma visão, escrevo-lhe para compartilhar esta impressão, acordei muito nervoso , como estão as coisas por ai? Gostaria de visita-lo dentro de um mês o que me diz?

Fraternas saudações

Agenor

Ava sentiu um arrepio, tomou um café estava excitado, curioso e animado, nunca tinha se sentido assim, alguma coisa estava acontecendo e ele enfim sabia que não estava vivendo um simples devaneio, estava confuso, nervoso mas precisava continuar lendo, não responderia ninguém até ter lido tudo e continuou, o e-mail seguinte era do brigadeiro João, que era um grande conhecedor da ciência de voar, tinha uma coleção de aeronaves de diferentes períodos que ninguém sabia de onde vinham, vivia no alto de uma fria montanha onde fazia experiências com plantas,aves e aeronaves

Comandante Ava,

Escrevo-lhe por que tenho medo, esta noite um homem velho apareceu-me aqui como fosse uma espécie de assombração,por pouco não o matei com o susto de sua presença me pediu algo para beber, parecia um velho conhecido, não sei como ele chegou até mim, como você sabe vivo num lugar muito alto e isolado e ele não parecia cansado, nem faminto, tampouco veio voando pois eu o teria detectado em meus aparelhos, apenas tinha sede, dei-lhe água e vinho, esperando que ele quebrasse o silencio, fiz lhe mil perguntas e para todas ele apenas me abanava a mão me dizendo que esperasse em pouco tempo adormeci e tive o mais terrível sonho, estava em uma cabana no alto de uma árvore, por cima dos galhos uma espécie de vila, onde muitas casas estavam, era estranho por que eu sabia que era a copa de uma grande árvore, mas embaixo tudo estava tomado pela água, cães ficavam de plantão em um patamar mais baixo meninos e cães faziam uma estranha pescaria de coisas e ossos, pescavam destroços e corpos de pessoas, atrás deles uma fila de pessoas que pegavam isso ou aquilo, enquanto tudo que parecia comida era enviado para uma plataforma onde um imenso fogão era comandado por algumas pessoas e vigiado por muitos cães,entrei em um barco com capacidade para uns 30 homens e fui levado por um caminho assustador, tudo estava afundando, as copas de arvores imensas eram apenas arbustos e neste barco tinham pequenas jaulas onde animais encontrados eram colocados esse barco tinha uma pá na frente como uma escavadeira que ia abrindo caminho entre corpos de pessoas e animais e entre destroços de toda a natureza, quando passavamos por uma arvore vimos um homem que parecia um zumbi, mal conseguia falar estava semi-morto, pensei que eles lhe salvariam mas apenas lhe jogaram algumas frutas e seguiram tentei falar e só então percebi que estava mudo e acordei, pra minha surpresa estava sozinho mas há indicios de que este homem esteve aqui alguma coisa está acontecendo, tenho medo, acredito que precisamos nos encontrar o mais breve possível, aproveito para lhe dizer que estou me correspondendo com uma mulher, devo sair daqui em breve para ir conhece-la pessoalmente, para ver se podemos incorpora-la a nossa nova formação, gostaria de visita-lo, aguardo coordenadas. Que a fé nunca nos cegue. Fique em paz.

BJC

Quando Ava acabou de ler o e-mail sentiu um medo repentino, começou a andar de um lado pro outro sua mente começou a funcionar a mil por hora ele começou a pensar milhões de coisas, não gostava de sentir medo.

Saiu pro trapiche, respirou olhou em volta, sentiu o vento e pensou que era tão boa a sensação de estar ali, sentiu-se vivo, repassou como sempre fazia as patentes militares, todas as honrarias e medalhas, pensou que soberana era a nação cujo deus é o senhor e foi ler a bíblia, leu todo o apocalipse e sentiu coragem, rezou pedindo pra Deus lhe conceder a missão!

- Eu quero saber! disse em voz alta.

Pela hora do almoço pegou o barco pequeno e foi navegar queria encontrar Jandira, navegou por um braço de rio do lado e do outro só se via a floresta passando, pequenos rios que formavam um arquipélago pensava lembrando da cartografia da área, dali de dentro tudo parecia um grande labirinto era pra seguir reto, ja tinha passado pela placa do sítio, era uma pequena ilha que tinha uma praia suja frequentada por porcos e galinhas, lamentou quando passou por lá, gostaria de ter uma pequena praia particular, o porto era longe da casa como a agua estava baixa ele aportou num tronco que separava o rio da escada do trapiche quando subiu viu um pequeno caminho suspenso no fim desse caminho uma casa alta de palafitas e um senhor sentado

O homem sentado na cadeira devia ter uns 100 anos, era possível notar que ele era cego por que não olhou para Ava, ficou procurando um som e ao ouvir seus passos se aproximando perguntou, vem da parte de quem? Ava falou que procurava Jandira, ela foi tirar turu disse o velho, Ava perguntou se podia esperar e perguntou o nome do homem que disse que podia chamar ele de marujo, Ava riu, Marujo lhe ofereceu um café, Ava não queria incomoda-lo e não aceitou, não se preocupe disse o homem vou pegar o meu e pego o seu, gosto de me sentir útil, trouxe um café gostoso que deixou Ava bem tranquilo e ele começou a olhar ao seu redor, era uma pequena ilha e ele reparava no coco dos porcos espalhados, disse que era uma pena que os porcos sujassem a praia.

Marujo lhe contou que antes dos porcos as tartarugas desovavam la naquela praia, mas os porcos eram um bom investimento e davam um bom dinheiro, e como era muito trabalhoso por ordem num chiqueiro era melhor criar os bichos soltos, Ava continuou lamentando mentalmente, queria saber mais de Marujo, perguntou se ele era parente de Jandira, sou tio-avô dela irmão da mãe dela.

-Ava reparou na casa pequena, nas grandes arvores espalhadas nas frutas estranhas, tudo aquilo lhe dava uma serenidade, era como experimentar uma coisa de novo, sentado naquele alpendre ele tinha uma sensação que não tinha com frequência de que estava no lugar certo de repente sua mente deu um giro e ele começou a visualizar a cena dos sonhos de seus colegas, queria saber que mais tinham pra contar e queria entender, mas precisava encontrar Jandira por que ela certamente era um elo e ele tinha tanta vontade de ve-la e de estar perto dela como uma tábua de lucidez num mar de loucura. Sentiu de novo o medo da paranóia e se houvesse uma conspiração contra ele e se tudo aquilo fosse uma farsa orquestrada para desestabiliza-lo, depois pensou que talvez aquilo fosse um remédio será que tinha enlouquecido, olhou em volta e teve medo de estar morto, começou a andar de um lado para o outro e quando já estava a um ponto de desespero ouviu um barulho no mato era Jandira.

Ele pensou como ela era tão bonita de qualquer jeito e a vontade de beija-la fez com que o sangue circulasse no seu corpo, ela sorria não parecia surpresa, usava um vestido velho e com alguns furos, era apertado e ele gostava de ver os seios dela quase pulando estava se sentindo tão vivo ,era uma sensação estranha de que ele tinha sobrevivido a séculos de sofrimentos e estava no paraíso, ele queria beija-la, ele queria te-la, ela vinha com uma lata cheia de minhocas curtas e gorduchas ainda vivas.

-Oi Jandira!

- O senhor por aqui tão de pressa!- disse sorrindo, limpando a mão na barra da saia e estendendo pra ele.

-Lembrei que tinha visto uns frangos nessa ilha e vim ver se não me venderia um - mentiu.

- Claro, se quiser posso preparar também, por que não come hoje aqui com nós, lhe dou uns frango e o senhor me ajuda apanhar umas fruta que tal?

- Muito bom! o que são essas larvas?

- Isso aqui é turu é muito bom esse bicho, tem gosto de pau velho, disse colocando um deles ainda vivo na boca e matando no dente!

Ava mesmo confuso que aquela não fosse a mesma mulher que tinha entrado em sua casa na noite anterior sentia-se tão a vontade perto dela e gostava dos seus gestos um pouco rudes.

-Quero experimentar! -disse pegando um e repetindo o que ela tinha feito - Tem gosto de madeira realmente, parece manga.

- É mais das vez eles tem o gosto da planta que ele deu, ele tá nas planta caida.

- E come assim mesmo?

-Só se o sujeito tiver num perrengue de mato, sem te com que se haver, esse é pra fazer farofa pro vô marujo! né Vô?

- Se eu tivesse dente agora eu ia achar era bom estalar uns desse, disse rindo banguela.

Ava tinha mil coisas para perguntar e fazia tanto tempo que nao estava com uma mulher afinal nao ia contar a noite anterior por que nao sabia se era sonho ou realidade, ela pediu pra ele pegar duas galinhas grandes e se possivel mata-las por que ela não gostava defazer isso, Ava pegou duas bem grandes e quebrou o pescoço de ambas.

A casa de jandira era muito pequena, tinha tres comodos, sala, quarto e cozinha, a sala era apenas um vão com uma imagem de nossa senhora do rosário no fundo uma rede de pesca pendurada no meio,pendendo da cumieira e um banco em cada parede, num canto uma rede e embaixo da rede uma mala antiga.

O comodo do meio estava trancado, e a cozinha era um vão sem paredes com um fogão a lenha, muitos paneiros empilhados, alguns cheios de manga, tudo tinha cheiro de manga e madeira molhada.

-O senhor é crente?

- Mais ou menos... não sou de nenhuma igreja mas sou um homem de fé! e a senhora?

- Eu acredito no sagrado coração de Maria.

- A senhora é católica?

-Não. venha cá, tá vendo aquela árvore ali que tem um cacho vermelho? é pupunha é dificil de apanhar por que é espinhenta tem uma escada mas não chega até o cacho e aquele ali já tá bom de comer, quando ele olhava envolta para fazer uma engenharia qualquer uma menina veio correndo na direção dele e passou direto para a barra da saia de jandira, devia ter uns 5 anos, estava assustada e parecia uma miniatura de Jandira

- Ai mamãe eu sonhei de novo, eu nao quero mais ter esse sonho, eu quero sonhar coisas bonitas.

-Tu rezou minha filha ?

- Ainda não, reza comigo.

- Agora vou fazer comida, peça pra o seu avô e eu ja disse pra não dormir de manhã.

- Mãe quem é esse homem perguntou baixinho.

Ava acenou pra menina, e ela virou a cara.

-É o meu pai mãe?

Jandira pegou ela pelo braço e foi puxando pela casa até onde estava marujo.

- Ai criança é confusão né.

- É sua filha?

-É, mas como o senhor ouviu não tem pai e vamos adiantar que eu to com fome, o senhor me ajude com a pupunha que eu vou fazer a comida.

Ava não sabia fazer muitas perguntas, era um homem intuitivo que gostava de ir descobrindo as coisas lentamente queria muito saber o sonho da menina,mas tinha tanto pra descobrir ali que achou melhor ir logo pegar a pupunha pegou o facão, amarrou numa vara comprida, subiu na escada e cortou o galho, tudo muito rápido, deixou Jandira muito satisfeita, agora o senhor poderia apanhar uns cocos ali mais pra frente naquele rumo daquela ponte tem um cocal e ali tem umas sacas, será que o senhor me faz esse favor?

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ava e o Apocalipse - Livro I

quinta-feira, 10 de maio de 2012 0
Ava sempre tinha aquele sonho, de que o mundo ia acabar com uma chuva fina e persistente, tinha se mudado pra uma pequena cidade, decidido a escrever um livro sobre o seu sonho, tinha 60 anos, era viúvo e sem filhos, a morrer morreu de um problema no coração que tinha se agravado ao longo dos anos e que também a havia impedido de engravidar, Era aposentado da Marinha e tinha comprado um barco de navegação para uma tripulação de 30 homens.

Gostava muito de tecnologia e tinha uma caixa cheia de ipads novos, notebooks, antenas parabólicas e todo um complexo equipamento de navegação que já vinha no barco, que foi praticamente um mimo de um grande comandante que lhe tinha profundíssima consideração. Desde que tinha se aposentado, tinha aquele sonho de que o mundo ia acabar, com uma grande inundação, nunca foi religioso, mas acreditava que estava recebendo um sinal. Tinha resolvido ter uma vida náutica, ia começar vivendo dentro do barco, depois desistiu da idéia, era melhor preparar um lugar, ao longo dos anos e da obstinação do seu plano alguns amigos começaram a lhe acompanhar na sua alucinação e assim tinham formado a guarda do Apocalipse, nesse grupo estavam muitos militares aposentados e dois padres que gostavam da idéia de ter um plano para um possível fim do mundo.


Ava estava sentado na varanda, fazia planos mentais e talvez pela primeira vez em muito tempo ele tenha pensado que se morresse antes de poder executar seus planos teria perdido uma boa parte da sua vida em algo que ele não veria, pensou que queria ter tido um filho e também que precisava urgentemente deixar o seu plano para as futuras gerações, seu pensamento foi interrompido por um raio e de repente uma chuva fina começou a cair, foi engrossando e quando ele ia se levantando para ir fazer anotações na internet viu que muito longe vinha um barco que fazia uma manobra como se fosse atracar no seu porto, ele pegou o binóculo mas a chuva lhe deixou apenas ver que alguém vinha bem agasalhado e abaixado, um assovio familiar deixou-lhe em estado de alerta, não propriamente reconheceu o assovio, mas ele era alguma coisa que ele já tinha escutado e podia reconhecer.
Era uma mulher, e era muito bonita, foi o que ele pensou quando ela subiu as escadas molhada com um vestido que tinha a estampa de vários tipos de peixes que ele foi classificando mentalmente.
-Ava?
-Sim.
-Ila, vim busca-lo.
-Me buscar?
- Sim, você precisa voltar, o sistema esta desestabilizado, não conseguiremos manter você aqui por muito tempo.
-Não sei do que você está falando.
-Sente-se aqui.
-Desculpe, estou bem confuso, nunca lhe vi, não preciso voltar pra lugar nenhum, estou no lugar certo, não sei como a senhora sabe o meu nome.
Ela era muito familiar, era bonita, tinha décadas á menos que ele, ele olhava pra seus olhos de castanha.
Ela deu um passo na direção dele e passou a mão pela barriga, ele fechou os olhos não tinha vontade de resistir, tudo nela repetia sensações, alguma coisa que ele já tinha sentido.
- Lembre de mim...
- Ele abriu os olhos e ela estava parada na sua frente quase colada nele, era baixa e ele sentiu vontade de beija-la, e quando se abaixou para fazer isso, ela deixou-se beijar.
-Você precisa lembrar, ela disse enquanto ele a beijava.
-Ele abraçou ela e fechou os olhos, ela tirou o vestido e foi levando ele pra dentro da casa, deitaram na rede ele sentia como se aquilo tivesse se repetido durante muitas vezes na vida, foi tudo tão familiar, ela dormiu, ele ficou olhando pra ela , ela vinha carregada de lembranças, ele pegou a lamparina e trouxe pra perto pra poder ve-la melhor, ela tinha uma tatuagem na anca era o símbolo da marinha dentro de um aquário, ele passou a mão, ela acordou, e o abraçou, vem, vim trazer seu sonho, durma comigo, ele encaixou ela entre os braços o cabelo dela tinha um cheiro bom de alguma coisa que ele não sabia o que era, mas não era perfume era alguma coisa orgânica, algas marinhas, era isso ela tinha cheiro de algas, ele pegou a mão dela e viu que elas eram diferentes, os dedos mais largos na base e a ponta fina e uma pequena pele que juntava todos os dedos.
Quando ele acordou estava na frente de uma enorme tela de plasma sentado em uma cadeira, tudo em volta era de vidro pelo lado de fora o cenário era o fundo do mar, ele levantou-se e pensou que esse era o sonho que a moça trazia, ficou vendo os peixes passaram, depois começaram a passar por ele pequenos submarinos com pessoas que pareciam não vê-lo, ele estava parado.
Viu uma porta, não tinha tranca, empurrou, bateu, pensou se isso é um sonho quero que alguém apareça aqui agora e a porta se abriu, um rapaz entrou, parecia alguém familiar:
- Ava, que bom vê-lo.
- Gostaria de poder dizer isso, desculpe. Já aconteceu não é?
-Já sim, já havia antes de você pensar nisso.
- Desculpe, não entendi. Como foi? Um dilúvio.
- Foi o Dilúvio, o único que teve.
- Estou um pouco confuso, ei que isso é um sonho mas eu estou com fome.
- Isso não é um sonho, tome essas pílulas e estendeu pra ele duas pílulas verdes
Que ele tomou e rapidamente sentiu-se não só saciado como forte.
- Você vai me explicar não é? Como você se chama?
- Arius, venha, sente-se aqui.
Sentaram em frente a tela de plasma e começou a passar um filme.
Era um dia normal, só que mais quente que de costume, as pessoas começaram a tomar sorvete e foram até a praia e colocaram o ar condicionado no máximo e tomaram banho de piscina e muitos banhos, mas nada adiantou, foi um dia diferente por que não choveu em lugar nenhum do mundo, estava tão quente que em vários pontos por cima do mar formou-se uma espessa camada de nuvem, os jornais noticiaram que as formações eram nuvens e que elas não estavam subindo evaporando-se ali mesmo, assim foi a noite e vários dias seguidos, o ano era 2099. Aos poucos as calotas polares começaram a derreter e aumentar o nível do mar as cidades começaram a ser inundadas, as pessoas não conseguiam sair de casa por conta do calor, centenas depois milhares de pessoas começaram a morrer. o planeta foi completamente inundado em questão de meses, tudo foi mais difícil por conta do calor que impedia as pessoas de trabalharem, os americanos desenvolveram um traje especial refrigerado e começaram a trabalhar em embarcações e plataformas subaquáticas, aos poucos a maior parte da população morreu afogada ou de calor.
-Eu já estava morto. Não vi nada não é. Tudo em vão...
-Nada em vão... continue assistindo.


Outros países começaram a desenvolver diferentes estratégias, mas de um modo geral o mundo todo foi transportado pra debaixo d´agua, mas não foi uma coisa fácil nem simples, nem todas as pessoas foram transportadas, por toda a parte haviam cadáveres e ossos e tudo boiava a poluição era total assim como os níveis de invisibilidade, tudo virou o caos, a prioridade de todos os países foram cientistas, mulheres grávidas, artistas, políticos e magnatas.
- Como ficou a superfície?
- O universo é plano.
- O que?
- O Universo é plano,
e ele acordou.




Quando Ava acordou havia um cheiro de algas marinhas no seu corpo, achou que eram ainda os seus sentidos impressionados do sonho, mesmo assim ele vasculhou a casa toda em busca de indícios de uma possível visita por que não se lembrava de ter ido deitar, pensou que devia ter sido a dose de conhaque que tomou e esqueceu, viu que não tinham mais frutas e decidiu ir até a cidade em seu bote chamado six, ia pouco a cidade e tinha fama de maluco por falar pouco e viver isoladamente, não comprava quase nada por que mantinha o corpo condicionado a escassez e mantinha uma estranha dieta de repetir um mesmo alimento durante dias seguidos para simular situações emergências.
Ava era alto de compleição robusta e traços fortes, tinha nascido no sul e era claro de pele olhos e cabelos e também sua crescida barba de poucos fios era clara, logo chamava muita atenção na cidade.
Avistou uma banca com mangas muito bonitas, aproximou-se e cheirou uma fruta grande e rosa, a banca estava sozinha olhou em volta e ficou muito assustado quando viu se aproximar a moça com a qual tinha sonhado na noite anterior, ela sorriu e ele ensaiou um sorriso.
- Acabaram de chegar – ela disse olhando para seus olhos como faziam quase todos por ali.
- Quem? – ele perguntou assustado.
Ela riu. – As mangas.
- Desculpe-me mas eu conheço a senhora?
- Sempre lhe vejo por aqui, o senhor é o dono daquele barco de ferro não é?
- Sou sim, tu tás sempre por aqui?
- Só quando tenho mercadoria, tem muitas frutas lá no meu sítio mas nem sempre tenho quem me ajude a trazer elas pra cá.
Ele sentia vontade de beija-la.
- Quero 5 dúzias, gosto muito de manga, como é o seu nome?
- Jandira, vou precisar de um paneiro, espere um, pouco que vou ver um aqui com o vizinho.
Ele a observou sair, não tinha o mesmo jeito no seu sonho, mas a presença dela ali explicava muita coisa, ele já devia te-la visto e ela estava em algum lugar no seu inconsciente do mesmo modo que a informação sobre a teoria do universo plano que ele já devia ter visto ou ouvido em algum lugar nos seus estudos. Ela voltou e começou a colocar as mangas no cesto, ele olhou os seios dela dentro da blusa apertada e sentiu uma pequena onda de calor, era um homem contido, gostava de afirmar estar sempre no controle dos seus sentidos, dos seus desejos e das suas necessidades, pronto pra qualquer adversidade, mas ela tinha alguma coisa que ele não entendia.
Ava não ligava para as coisas estranhas que sentia, também se considerava um louco, isso não lhe perturbava, sabia que só uma boa loucura pode dar conta de planos grandiosos, por isso sabia que podia ter experiências sensoriais, sensações sinestésicas sem estimulantes maiores que sua própria mente, ele não se importava realmente, afinal não estava solitário no seu surto e isso o mantinha firme, pensava isso olhando para os seios de Jandira e imaginando a cor dos mamilos dela, quando ela se levantou ele sentiu um cheiro de manga que vinha dela e sentiu vontade de morde-la, conteve-se, pagou e ia saindo quando Jandira disse:
- Se quiser ir lá no meu sítio me ajudar a pegar frutas posso lhe pagar com um pouco de cada coisa, quando quiser ir lá siga direto pro rumo da ponta da matinta tem um porto com um desenho de São Benedito, pode ir qualquer dia.
- Obrigada, eu vou aparecer lá um dia desses – disse sério e foi embora.

Quando chegou em casa comeu cinco mangas e foi pra frente do computador usava um sinal de internet via rádio que era muito lento e limitado e isso conseguia lhe deixar nervoso.
Quando abriu sua caixa de email tinha recebido 6 e-mails estranhos, não eram para o grupo, eram privados, os membros que os escreveram estavam espalhados em diferentes pontos, O primeiro e-mail vinha do mais jovem deles o sargento Eric era um jovem engenheiro criado numa família adventista, conhecia Ava desde pequeno pois era neto de um grande amigo dele já falecido e com o qual tinha servido, um dia procurou Ava e disse que queria segui-lo foi aceito por sua imaginação e habilidades com a invenção de máquinas, por seus méritos em pouco tempo estava na casa dos doze mesmo que com a patente de sargento.

Almirante Ava,
Que experimentemos sempre a paz, aqui no deserto os dias passam sem muitas novidades, os reservatórios que criei tem mantido a água fresca e em constante movimento, os veículos antigos que foram trazidos na ultima leva pelo Contra Almirante Agenor, estou fazendo constantes experiências e já criei dois veículos que servem tanto para a areia como para a água, mas ainda não pude leva-los para teste em água por falta de combustível e transporte adequado o que pretendo resolver na próxima visita do brigadeiro João.
Escrevo-lhe fora do momento do envio de relatórios por que ontem aconteceu uma coisa muito estranha e estou um pouco abalado, ontem por volta do por do sol armou-se uma tempestade de areia, eu mexia nos veículos e teminei meu trabalho por conta da falta de luz, tenho conseguido bons resultados com as placas de captação solar, mesmo assim economizo para o uso dos computadores e da rede, quando ia e recolhendo para o abrigo vi um vulto que vinha na minha direção, era pequeno e corria, quando se aproximou era uma menina, aparentava uns 8 anos, disse que se chamava Nereida e que vinha de muito longe e precisava passar a noite, estava coberta de lama dos pés a cabeça e a princípio não notei como aquilo era estranho, dei-lhe um balde de água e roupas limpas, perguntei de onde vinha e me assustei, falava como uma mulher adulta e isso me perturbou, disse que vinha de muito longe e que eu precisava me lembrar dela, disse que queria beber alguma coisa e tomamos um suco de caixa dos últimos de meu estoque, adormeci, e tive um sonho, tão nítido que não tenho como não narra-lo, preferi não incomodar na lista do grupo e por isso lhe escrevo em particular.
Acordei dentro de uma construção de madeira, tudo tinha cheiro de lama, eu estava deitado numa rede muito alta e coberta por um mosquiteiro, um homem me olhava lá de baixo e me fez sinal que descesse pela parede, achei sua orientação estranha mas quando encostei na parede senti que eu tinha capacidades como a de uma lagartixa e como se fosse uma desci sem nenhuma dificuldade pela parede, lá embaixo o homem se apresentou disse que seu nome era Neity, vestia uma estranha roupa que parecia de mergulho e encapava todo seu corpo como se ele próprio tivesse uma pele de foca, lá fora a coisa toda se repetia e as pessoas usavam roupas iguais, só que de diferentes cores, havia lama por toda parte e muitas e muitas pontes por cima de tudo, ele me levou caminhando por sobre as pontes e me mostrou no centro daquilo que parecia uma vila o veículo que eu inventei atolado, uma das coisas estranhas era que as casas eram muito altas muito além do nível da lama e das pontes, e também eu não entendia por que as pontes e tudo abaixo das casas não era limpo por aquelas pessoas que pareciam tão cultas, reparei também que havia um certo desenvolvimento tecnológico pois por cima das casas haviam antenas de transmissão outra coisa estranha era que todos os telhados eram planos.
O homem caminhava calado e eu não lhe perguntei nada tal o meu assombro, depois vi virem do céu estranhos pássaros gigantes, tive medo, quando estavam mais próximos vi que eram pessoas que usavam máquinas de voar com imensas asas que imitavam pássaros, elas pousavam nos telhados das casas, tiravam as asas e desciam pelas paredes pra dentro das residências.
Quando eu ia perguntar alguma coisa, Neity, me puxou pelo braço e subimos rapidamente, em alguns minutos tudo debaixo das casas ficou coberto de água, de dentro da maré os mais distraídos subiam molhados e apressados, minha ultima visão foi meu veículo que passava levando a menininha que apareceu no deserto, ele me disse, você precisa lembrar, mande saudações ao almirante e eu acordei, quando despertei a criança não estava lá, no entanto o balde de agua e a roupa que lhe dei também tinham sumido, estou confuso, o que o senhor me diz sobre este sonho?
Aguardo suas orientações:
Sargento Eric.

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Ava e o Apocalipse. Design by Pocket - DMP3