Ava sempre tinha aquele sonho, de que o mundo ia acabar com uma chuva fina e persistente, tinha se mudado pra uma pequena cidade, decidido a escrever um livro sobre o seu sonho, tinha 60 anos, era viúvo e sem filhos, a morrer morreu de um problema no coração que tinha se agravado ao longo dos anos e que também a havia impedido de engravidar, Era aposentado da Marinha e tinha comprado um barco de navegação para uma tripulação de 30 homens.
Gostava muito de tecnologia e tinha uma caixa cheia de ipads novos, notebooks, antenas parabólicas e todo um complexo equipamento de navegação que já vinha no barco, que foi praticamente um mimo de um grande comandante que lhe tinha profundíssima consideração. Desde que tinha se aposentado, tinha aquele sonho de que o mundo ia acabar, com uma grande inundação, nunca foi religioso, mas acreditava que estava recebendo um sinal. Tinha resolvido ter uma vida náutica, ia começar vivendo dentro do barco, depois desistiu da idéia, era melhor preparar um lugar, ao longo dos anos e da obstinação do seu plano alguns amigos começaram a lhe acompanhar na sua alucinação e assim tinham formado a guarda do Apocalipse, nesse grupo estavam muitos militares aposentados e dois padres que gostavam da idéia de ter um plano para um possível fim do mundo.
Ava estava sentado na varanda, fazia planos mentais e talvez pela primeira vez em muito tempo ele tenha pensado que se morresse antes de poder executar seus planos teria perdido uma boa parte da sua vida em algo que ele não veria, pensou que queria ter tido um filho e também que precisava urgentemente deixar o seu plano para as futuras gerações, seu pensamento foi interrompido por um raio e de repente uma chuva fina começou a cair, foi engrossando e quando ele ia se levantando para ir fazer anotações na internet viu que muito longe vinha um barco que fazia uma manobra como se fosse atracar no seu porto, ele pegou o binóculo mas a chuva lhe deixou apenas ver que alguém vinha bem agasalhado e abaixado, um assovio familiar deixou-lhe em estado de alerta, não propriamente reconheceu o assovio, mas ele era alguma coisa que ele já tinha escutado e podia reconhecer.
Era uma mulher, e era muito bonita, foi o que ele pensou quando ela subiu as escadas molhada com um vestido que tinha a estampa de vários tipos de peixes que ele foi classificando mentalmente.
-Ava?
-Sim.
-Ila, vim busca-lo.
-Me buscar?
- Sim, você precisa voltar, o sistema esta desestabilizado, não conseguiremos manter você aqui por muito tempo.
-Não sei do que você está falando.
-Sente-se aqui.
-Desculpe, estou bem confuso, nunca lhe vi, não preciso voltar pra lugar nenhum, estou no lugar certo, não sei como a senhora sabe o meu nome.
Ela era muito familiar, era bonita, tinha décadas á menos que ele, ele olhava pra seus olhos de castanha.
Ela deu um passo na direção dele e passou a mão pela barriga, ele fechou os olhos não tinha vontade de resistir, tudo nela repetia sensações, alguma coisa que ele já tinha sentido.
- Lembre de mim...
- Ele abriu os olhos e ela estava parada na sua frente quase colada nele, era baixa e ele sentiu vontade de beija-la, e quando se abaixou para fazer isso, ela deixou-se beijar.
-Você precisa lembrar, ela disse enquanto ele a beijava.
-Ele abraçou ela e fechou os olhos, ela tirou o vestido e foi levando ele pra dentro da casa, deitaram na rede ele sentia como se aquilo tivesse se repetido durante muitas vezes na vida, foi tudo tão familiar, ela dormiu, ele ficou olhando pra ela , ela vinha carregada de lembranças, ele pegou a lamparina e trouxe pra perto pra poder ve-la melhor, ela tinha uma tatuagem na anca era o símbolo da marinha dentro de um aquário, ele passou a mão, ela acordou, e o abraçou, vem, vim trazer seu sonho, durma comigo, ele encaixou ela entre os braços o cabelo dela tinha um cheiro bom de alguma coisa que ele não sabia o que era, mas não era perfume era alguma coisa orgânica, algas marinhas, era isso ela tinha cheiro de algas, ele pegou a mão dela e viu que elas eram diferentes, os dedos mais largos na base e a ponta fina e uma pequena pele que juntava todos os dedos.
Quando ele acordou estava na frente de uma enorme tela de plasma sentado em uma cadeira, tudo em volta era de vidro pelo lado de fora o cenário era o fundo do mar, ele levantou-se e pensou que esse era o sonho que a moça trazia, ficou vendo os peixes passaram, depois começaram a passar por ele pequenos submarinos com pessoas que pareciam não vê-lo, ele estava parado.
Viu uma porta, não tinha tranca, empurrou, bateu, pensou se isso é um sonho quero que alguém apareça aqui agora e a porta se abriu, um rapaz entrou, parecia alguém familiar:
- Ava, que bom vê-lo.
- Gostaria de poder dizer isso, desculpe. Já aconteceu não é?
-Já sim, já havia antes de você pensar nisso.
- Desculpe, não entendi. Como foi? Um dilúvio.
- Foi o Dilúvio, o único que teve.
- Estou um pouco confuso, ei que isso é um sonho mas eu estou com fome.
- Isso não é um sonho, tome essas pílulas e estendeu pra ele duas pílulas verdes
Que ele tomou e rapidamente sentiu-se não só saciado como forte.
- Você vai me explicar não é? Como você se chama?
- Arius, venha, sente-se aqui.
Sentaram em frente a tela de plasma e começou a passar um filme.
Era um dia normal, só que mais quente que de costume, as pessoas começaram a tomar sorvete e foram até a praia e colocaram o ar condicionado no máximo e tomaram banho de piscina e muitos banhos, mas nada adiantou, foi um dia diferente por que não choveu em lugar nenhum do mundo, estava tão quente que em vários pontos por cima do mar formou-se uma espessa camada de nuvem, os jornais noticiaram que as formações eram nuvens e que elas não estavam subindo evaporando-se ali mesmo, assim foi a noite e vários dias seguidos, o ano era 2099. Aos poucos as calotas polares começaram a derreter e aumentar o nível do mar as cidades começaram a ser inundadas, as pessoas não conseguiam sair de casa por conta do calor, centenas depois milhares de pessoas começaram a morrer. o planeta foi completamente inundado em questão de meses, tudo foi mais difícil por conta do calor que impedia as pessoas de trabalharem, os americanos desenvolveram um traje especial refrigerado e começaram a trabalhar em embarcações e plataformas subaquáticas, aos poucos a maior parte da população morreu afogada ou de calor.
-Eu já estava morto. Não vi nada não é. Tudo em vão...
-Nada em vão... continue assistindo.
Outros países começaram a desenvolver diferentes estratégias, mas de um modo geral o mundo todo foi transportado pra debaixo d´agua, mas não foi uma coisa fácil nem simples, nem todas as pessoas foram transportadas, por toda a parte haviam cadáveres e ossos e tudo boiava a poluição era total assim como os níveis de invisibilidade, tudo virou o caos, a prioridade de todos os países foram cientistas, mulheres grávidas, artistas, políticos e magnatas.
- Como ficou a superfície?
- O universo é plano.
- O que?
- O Universo é plano,
e ele acordou.
Quando Ava acordou havia um cheiro de algas marinhas no seu corpo, achou que eram ainda os seus sentidos impressionados do sonho, mesmo assim ele vasculhou a casa toda em busca de indícios de uma possível visita por que não se lembrava de ter ido deitar, pensou que devia ter sido a dose de conhaque que tomou e esqueceu, viu que não tinham mais frutas e decidiu ir até a cidade em seu bote chamado six, ia pouco a cidade e tinha fama de maluco por falar pouco e viver isoladamente, não comprava quase nada por que mantinha o corpo condicionado a escassez e mantinha uma estranha dieta de repetir um mesmo alimento durante dias seguidos para simular situações emergências.
Ava era alto de compleição robusta e traços fortes, tinha nascido no sul e era claro de pele olhos e cabelos e também sua crescida barba de poucos fios era clara, logo chamava muita atenção na cidade.
Avistou uma banca com mangas muito bonitas, aproximou-se e cheirou uma fruta grande e rosa, a banca estava sozinha olhou em volta e ficou muito assustado quando viu se aproximar a moça com a qual tinha sonhado na noite anterior, ela sorriu e ele ensaiou um sorriso.
- Acabaram de chegar – ela disse olhando para seus olhos como faziam quase todos por ali.
- Quem? – ele perguntou assustado.
Ela riu. – As mangas.
- Desculpe-me mas eu conheço a senhora?
- Sempre lhe vejo por aqui, o senhor é o dono daquele barco de ferro não é?
- Sou sim, tu tás sempre por aqui?
- Só quando tenho mercadoria, tem muitas frutas lá no meu sítio mas nem sempre tenho quem me ajude a trazer elas pra cá.
Ele sentia vontade de beija-la.
- Quero 5 dúzias, gosto muito de manga, como é o seu nome?
- Jandira, vou precisar de um paneiro, espere um, pouco que vou ver um aqui com o vizinho.
Ele a observou sair, não tinha o mesmo jeito no seu sonho, mas a presença dela ali explicava muita coisa, ele já devia te-la visto e ela estava em algum lugar no seu inconsciente do mesmo modo que a informação sobre a teoria do universo plano que ele já devia ter visto ou ouvido em algum lugar nos seus estudos. Ela voltou e começou a colocar as mangas no cesto, ele olhou os seios dela dentro da blusa apertada e sentiu uma pequena onda de calor, era um homem contido, gostava de afirmar estar sempre no controle dos seus sentidos, dos seus desejos e das suas necessidades, pronto pra qualquer adversidade, mas ela tinha alguma coisa que ele não entendia.
Ava não ligava para as coisas estranhas que sentia, também se considerava um louco, isso não lhe perturbava, sabia que só uma boa loucura pode dar conta de planos grandiosos, por isso sabia que podia ter experiências sensoriais, sensações sinestésicas sem estimulantes maiores que sua própria mente, ele não se importava realmente, afinal não estava solitário no seu surto e isso o mantinha firme, pensava isso olhando para os seios de Jandira e imaginando a cor dos mamilos dela, quando ela se levantou ele sentiu um cheiro de manga que vinha dela e sentiu vontade de morde-la, conteve-se, pagou e ia saindo quando Jandira disse:
- Se quiser ir lá no meu sítio me ajudar a pegar frutas posso lhe pagar com um pouco de cada coisa, quando quiser ir lá siga direto pro rumo da ponta da matinta tem um porto com um desenho de São Benedito, pode ir qualquer dia.
- Obrigada, eu vou aparecer lá um dia desses – disse sério e foi embora.
Quando chegou em casa comeu cinco mangas e foi pra frente do computador usava um sinal de internet via rádio que era muito lento e limitado e isso conseguia lhe deixar nervoso.
Quando abriu sua caixa de email tinha recebido 6 e-mails estranhos, não eram para o grupo, eram privados, os membros que os escreveram estavam espalhados em diferentes pontos, O primeiro e-mail vinha do mais jovem deles o sargento Eric era um jovem engenheiro criado numa família adventista, conhecia Ava desde pequeno pois era neto de um grande amigo dele já falecido e com o qual tinha servido, um dia procurou Ava e disse que queria segui-lo foi aceito por sua imaginação e habilidades com a invenção de máquinas, por seus méritos em pouco tempo estava na casa dos doze mesmo que com a patente de sargento.
Almirante Ava,
Que experimentemos sempre a paz, aqui no deserto os dias passam sem muitas novidades, os reservatórios que criei tem mantido a água fresca e em constante movimento, os veículos antigos que foram trazidos na ultima leva pelo Contra Almirante Agenor, estou fazendo constantes experiências e já criei dois veículos que servem tanto para a areia como para a água, mas ainda não pude leva-los para teste em água por falta de combustível e transporte adequado o que pretendo resolver na próxima visita do brigadeiro João.
Escrevo-lhe fora do momento do envio de relatórios por que ontem aconteceu uma coisa muito estranha e estou um pouco abalado, ontem por volta do por do sol armou-se uma tempestade de areia, eu mexia nos veículos e teminei meu trabalho por conta da falta de luz, tenho conseguido bons resultados com as placas de captação solar, mesmo assim economizo para o uso dos computadores e da rede, quando ia e recolhendo para o abrigo vi um vulto que vinha na minha direção, era pequeno e corria, quando se aproximou era uma menina, aparentava uns 8 anos, disse que se chamava Nereida e que vinha de muito longe e precisava passar a noite, estava coberta de lama dos pés a cabeça e a princípio não notei como aquilo era estranho, dei-lhe um balde de água e roupas limpas, perguntei de onde vinha e me assustei, falava como uma mulher adulta e isso me perturbou, disse que vinha de muito longe e que eu precisava me lembrar dela, disse que queria beber alguma coisa e tomamos um suco de caixa dos últimos de meu estoque, adormeci, e tive um sonho, tão nítido que não tenho como não narra-lo, preferi não incomodar na lista do grupo e por isso lhe escrevo em particular.
Acordei dentro de uma construção de madeira, tudo tinha cheiro de lama, eu estava deitado numa rede muito alta e coberta por um mosquiteiro, um homem me olhava lá de baixo e me fez sinal que descesse pela parede, achei sua orientação estranha mas quando encostei na parede senti que eu tinha capacidades como a de uma lagartixa e como se fosse uma desci sem nenhuma dificuldade pela parede, lá embaixo o homem se apresentou disse que seu nome era Neity, vestia uma estranha roupa que parecia de mergulho e encapava todo seu corpo como se ele próprio tivesse uma pele de foca, lá fora a coisa toda se repetia e as pessoas usavam roupas iguais, só que de diferentes cores, havia lama por toda parte e muitas e muitas pontes por cima de tudo, ele me levou caminhando por sobre as pontes e me mostrou no centro daquilo que parecia uma vila o veículo que eu inventei atolado, uma das coisas estranhas era que as casas eram muito altas muito além do nível da lama e das pontes, e também eu não entendia por que as pontes e tudo abaixo das casas não era limpo por aquelas pessoas que pareciam tão cultas, reparei também que havia um certo desenvolvimento tecnológico pois por cima das casas haviam antenas de transmissão outra coisa estranha era que todos os telhados eram planos.
O homem caminhava calado e eu não lhe perguntei nada tal o meu assombro, depois vi virem do céu estranhos pássaros gigantes, tive medo, quando estavam mais próximos vi que eram pessoas que usavam máquinas de voar com imensas asas que imitavam pássaros, elas pousavam nos telhados das casas, tiravam as asas e desciam pelas paredes pra dentro das residências.
Quando eu ia perguntar alguma coisa, Neity, me puxou pelo braço e subimos rapidamente, em alguns minutos tudo debaixo das casas ficou coberto de água, de dentro da maré os mais distraídos subiam molhados e apressados, minha ultima visão foi meu veículo que passava levando a menininha que apareceu no deserto, ele me disse, você precisa lembrar, mande saudações ao almirante e eu acordei, quando despertei a criança não estava lá, no entanto o balde de agua e a roupa que lhe dei também tinham sumido, estou confuso, o que o senhor me diz sobre este sonho?
Aguardo suas orientações:
Sargento Eric.
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quinta-feira, 10 de maio de 2012
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